O Guerreiro Mago contra Todos | Heróis da Mágoa – Parte I

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Esse é o resumo da sessão ocorrida dia 15.09.18, ocorrida com os Heróis da Mágoa. Gatts e Pyrus estão separados, de cada lado de Reymend cada um se depara com um desafio que pode alterar totalmente a vida de todos os Heróis do Trono.

Jogadores:

Diogo Coelho – Theros Gatts
Questin Himbble – PdM

Essa é uma história original, escrita por Bruno de Brito e revisada pelas hábeis mãos e olhos de Fabrício Nobre.

A Forca

04 de Preparos de 597 CY

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atts, juntamente com Caleb, Dustran e Questin cavalgavam céleres até Reymend e a comitiva não tarda a ver os limites da cidade satélite do Viscondado de Verbobonc. Todos diminuem a velocidade do galope a medida que se aproximam quando Gatts disse:

“- Senhores, como estamos nos aproximando, desejo determinar um plano. Não sei como estão as coisas em Reymend, mas de acordo com a última mensagem de Pyrus, enquanto estávamos na mina, um grupo conhecido como a Legião do Chifre chegou a cidade atrás do príncipe ou de seus indícios. Se for verdade, ele está em sérios apuros e precisamos ser eficazes em nossas ações. Acredito que ele não esteja mais em Reymend. Adentraremos para obter informações e partiremos o mais rápido possível.”

A Estratégia de Gatts

“- Você está certo, Gatts. Como sugere que seja melhor fazermos?” – Disse Questin, porem foi Dustran que se manifestou.

“- Peço que me desculpem mas a coisa está ficando um pouco mais perigosa do que acredito que sou capaz de lidar. Espero que me entendam. Tenho família em Reymend e não quero expô-los a qualquer risco.”

“- Não se preocupe meu caro patrulheiro – Respondeu Gatts – Você nos ajudou muito e não queremos lhe envolver mais do que você já se envolveu. Antes que eu possa continuar, aproveite da montaria para ganhar distância de nós, de modo que não seja visto conosco. Somos todos muito gratos”.

E desta forma, Dustran partiu do grupo.

Todos observaram Dustran ganhar distância do grupo e tão logo ele desapareceu no horizonte, Gatts retomou a estratégia:

“- Então Questin, somos eu e você agora. Senhorita Caleb, minha prioridade será lhe manter em segurança, portanto fique tranquila. Questin, quero que você vá até a Velho Risonho e procure por Dimitri Gordon. Ele terá as informações de que precisamos sobre Pyrus e nosso amigo Tom. Quero que você seja muito discreto. Sei que não dispõe mais de seus passos das sombras, mas trabalhe como se tivesse. Eu e a senhorita Caleb iremos até o templo do Santo Cuthbert. Preciso apresentar a prova de que Dikstra é inocente. Levarei ao conhecimento deles  que a administração da cidade é corrupta e pior, foi responsável por orquestrar o falso assassinato de Caleb”.

Divisão do Grupo

“- Gatts, são acusações sérias – Ponderou o Halfling – E a esta altura Strauss ou o prefeito já tem conhecimento. Lembre-se que Bast, o sacerdote de Vecna responsável pela clausura de Caleb, fugiu. Você precisará tomar muito cuidado meu caro.”

“- Não se preocupe pequenino. O clero do Santo Cuthbert é extremamente rigoroso com o cumprimento da lei e da ordem. Tenho certeza que terei o apoio de que preciso para depor esse prefeito e o magistrado. Agora não percamos mais tempo. Precisamos correr! A esta altura as condenações já estão ocorrendo na praça e não podemos permitir que Dikstra seja enforcada. Nos encontraremos aqui, depois de cada um cumprir sua parte no plano.”

“De acordo, Gatts – Respondeu o halfling, após ver a determinação do guerreiro mago.

E cada cavalo tomou uma direção distinta após este ponto.

Execuções

Gatts percorria disfarçado de viajante campesino junto com Caleb a sua garupa com o capuz do manto ocultando-lhes a face. Ambos notaram como a praça estava repleta de curiosos que vieram assistir as execuções. Três forcas encontravam-se armadas mas nava havia se iniciado te então. Gatts estava satisfeito com o aparente atraso. Significava que ainda teria tempo e, desta forma, se pôs a cavalgar com um pouco mais de pressa.

“- Gatts vão iniciar as execuções! Veja duas pessoas subiram ao palco além do carrasco!” – Disse Caleb.

Caleb estava certa. As execuções tinham iniciado porem terceira forca ainda estava vazia. Nenhuma das pessoas que subiram ao palco se parecia com a meia-orc Dikstra. Ela não estava lá. Foi quando um homem que havia subido ao palco falou:

“- Bom dia povo de Reymend! Estamos aqui hoje para cumprir com a determinação da lei. Estes homens foram julgados pelos seus crimes e sentenciados à morte. Não há espaço em nossa cidade para o crime.”

Dura Lex, Sed Lex“.

E tão logo foi dito, as pessoas foram levadas às forcas e enforcadas, sem quaisquer cerimônias. Gatts achou aqui muito estranho e incomum. Normalmente um padre benzia os condenados, concedendo-lhes as últimas preces. Esse era o ritual dos reinos civilizados. Aquilo havia sido uma execução. E o magistrado continuou enquanto os enforcados ainda agonizavam sob o peso de seus próprios corpos.

“- Infelizmente, uma das condenadas fugiu durante a noite. Por esse motivo, sua sentença mudou. Qualquer um que capture Dikstra An Craite, viva ou preferencialmente morta, receberá o estipêndio de 500 trigos. Quinhentas moedas de ouro pela cabeça da meia-orc.” – Anunciou o homem no palco.

Gatts estava enojado com aquele absurdo. Indignado, continuou seu trote rumo a igreja.

Olhos Atentos

Gatts não havia percebido mas, desde que atravessara os portões de Reymend, estava sendo seguido por duas figuras furtivas. Todos que entravam ou saiam da cidade estavam sendo minunciosamente observados pelos sentinelas da legião. E um deles confirmou a descrição do cavaleiro. Sua grande espada e a aura de magia que carregava denunciava sua verdadeira identidade. A dupla furtivamente seguiu Gatts até o templo de Cuthbert e, deste ponto, um deles seguiu em outra direção. O cerco se fecharia em torno de Gatts.

O templo de Cuthbert em Reymend era um prédio de alvenaria branca e cinzenta. A construção parecia ter muito tempo de erguida e exibia uma arquitetura antiga e muito bela. Os portões do templo estavam abertos e Gatts foi adentrando. Notou logo na antessala do septo uma mulher vestindo um longo vestido branco, já envelhecido. Seus cabelos eram pretos como a noite. Deveria estar no auge de seus 30 anos e estava aparentemente ditando cuidados para um homem com bandagens aplicadas no braço e cabeça. Quando concluiu o atendimento ao enfermo, a mulher voltou o olhar para Gatts, já sem o capuz e Caleb ainda oculta no manto.

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Keira Mertz,a presbítera do Templo

“- Bom dia. Em que a fé do Santo Cuthbert pode lhes ser útil?”

“- Bom dia, precisamos dos préstimos divinos do santo – Solicitou Gatts – Você poderia me ajudar com essas dores e ferimentos?”

A mulher observou os ferimentos de Gatts e não questionou onde os obtivera. Gatts sentiu como era quente e reconfortante o toque mágico da sacerdotisa. O guerreiro mago se sentia tranquilo por aquela energia divina ser de fato boa. Desde que havia reentrado em Reymend, ele questionava o papel do clero naquela sociedade corrompida. Como o clero podia aceitar que condenações fossem feitas daquele modo? Como puderam ser enganados com relação à morte de Caleb? Haviam sido feitos de tolos. Gatts desconfiava que algo estivesse realmente errado naquela cidade.

O Septo de Cuthbert

“- Chamo-me Gatts e gostaria de saber quem é a senhora e o responsável pela orientação religiosa do templo.”

“- Sou Keira Mertz, presbítera do templo. O senhor Alcaide Mor, é o sacerdote responsável pela tutela de Reymend.”

“- Ele se encontra? Seria possível uma audiência com ele”? – Questionou o guerreiro mago.

“- Permita-me ver se ele pode recebê-lo, senhor Gatts. Dei-me sua licença”. – Disse Keira, se afastando.

Gatts e Caleb aguardaram por um tempo e observavam a beleza da arquitetura do templo. Uma luz não natural vinha das laterais daquela antecâmara e davam um clima quente ao recinto. Gatts percebeu que Caleb estava apreensiva e nervosa e se aproximou da oerita prestando-lhes apoio e segurança. A mulher se aninhou próximo do guerreiro como se sentisse uma atração natural pela proteção do furyondês. Não demorou muito Keira retornou.

 “- Queiram me acompanhar, por gentileza.”

Os portões do septo foram abertos. Gatts notou a beleza da sala, com pilastras que suportavam o teto de mármore puro e liso. Uma piscina de águas rasas e cristalinas decorava o centro da sala. O líquido brilhava ao reflexo das luzes amarelas não naturais. Gatts viu no final da câmara um homem de idade avançada orando ajoelhado diante de uma pintura abstrata na parede.

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A Cruz de Cuthbert

O Tutor Alcaide Mor

O trio se aproximou do homem ajoelhado de forma respeitosa e aguardaram o padre concluir sua reza, que não se prolongou muito. Levou cerca de um quarto de hora para ele concluir sua oração e se erguer. Quando se virou para os visitantes, exibiu um sorriso receptivo.

“- Que a glória e a ordem do Santo, perpetuem sobre vocês. Como posso servir-lhes?” – Saldou o sacerdote.

Keira se retirava, uma vez que já tinha cumprido seu papel.  Porém Gatts pediu-lhe que ficasse e ouvisse. Com a autorização do tutor a presbítera permaneceu junto ao guerreiro.

Gatts se pôs prontamente a relatar para o Tutor tudo que ocorrera desde que chegaram a Reymend, tomando cuidado apenas em ocultar qualquer relato sobre príncipe e sua condição. Tudo foi exposto até no fim. O guerreiro mago teve o endosso de Caleb, que complementou várias informações. O Padre Alcaide observava sem mostrar surpresa, mas olhou com ternura na direção de Caleb, como sentisse pena da primeira dama. Gatts notou isso, mas continuou.

Duras Verdades

– “Me desculpe senhor Alcaide Mor, mas todos vocês foram feitos de tolos. Vocês enterraram um caixão vazio, deram os préstimos, ergueram uma tumba e oraram em nome do Santo para uma mentira. A prova viva de que tudo foi um engodo está aqui do meu lado. Ela é uma inocente retirada de uma mina sob a custódia de bandidos e um clérigo de Vecna. O senhor entende a gravidade disto?”.

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Alcaide Mor

Gatts não pôde ver, mas a presbítera Keira estava pálida, claramente surpresa com tudo que Gatts revelava. Era muito grave e, aparentemente, o clero fazia parte daquilo.

“- Senhor Alcaide, isso talvez explique por que a benção de Cuthbert abandonou esta casa e o senhor sinta isso na própria fé” – Sussurrou Keira.

Gatts observou as palavras de Keira com interesse instantâneo. Algo para ele até então impensável podia estar imperando ali. Um alto clérigo, tutor de um dos domínios de Verbobonc mancomunado com agentes corruptos.

Caleb, claramente emocionada e sensível aqueles relatos, ratificou as palavras de Gatts, dizendo:

“- Senhor Alcaide, eu sofria de maus tratos continuamente nas mãos de meu marido. O senhor tem o conhecimento, pois o senhor era o único a quem tinha coragem de confessar. Eu não quero retornar àquela condição.”

Não é possível determinar de quem era maior a raiva, se de Gatts ou de Keira, pois ambos falaram em uníssono:

– “Como assim, confissões?”.

A Chegada da Comitiva

Antes de Alcaide pudesse se justificar, a atenção do grupo se voltou para a entrada do septo. Pela mesma passagem de onde Gatts veio, duas figuras adentraram seguidas por homens armados com lorigas segmentadas e alabardas. Das duas figuras que lideravam a comitiva, uma era conhecida por Gatts. Era o magistrado Strauss e a outra o furyondês ouviu Caleb sussurrar, com medo genuíno na voz – Gelibol, o meu marido.

Gatts colocou Caleb em sua retaguarda, onde estava Alcaide e ao seu lado se posicionou próximo de Keira. O guerreiro mago sabia que o conflito estava muito próximo do inevitável.

“- Minha doce esposa! Mal consigo expressar a minha felicidade em saber que,  por um milagre atribuído tão somente a Cuthbert, você está viva! Que glória!” – Louvou Gelibol.

Havia um deboche e um ar irônico nas palavras daquele homem magro,  alto e de vestes marrons sem quaisquer sinais de nobreza. Aparentava ser um político. Gelibol Mengue era uma antítese de seu irmão, o magistrado Strauss Mengue, que era baixo, gordo e com um aspecto zombeteiro permanente no olhar.

“- Caleb, estou deveras feliz que esteja viva! – Continuou Gelibol – Vim lhe buscar meu amor. Queira me acompanhar e saia de perto desse rufião! Tenho motivos para crer que ele seja o responsável por tudo que lhes aconteceu.”

Gatts via o medo verdadeiro nos olhos da donzela Caleb. Ao seu lado, ele a sentia tremer incontrolavelmente, enquanto segurava seu braço com força. Vê-la deste jeito lhe causava tristeza e raiva. Ele não permitiria que Caleb fosse tocada novamente por aquele verme inescrupuloso.

A Âncora

Alcaide sentindo a tensão no ar, pediu calma a todos e que se dirigissem para o torreão, onde tudo poderia ser prontamente esclarecido. Porem Keira, indignada com tudo o que ouvira e vira ate ali, interrompeu o sacerdote e bradou:

“- Como ousam entrar no Templo do Santo Cuthbert armados? Essa é uma casa Santa! E ainda que esteja no solo desta cidade, pertence ao tutelado Santo! Retirem-se imediatamente!”

Surpreso e incomodado com a repentina bravata da presbítera, Alcaide Mor a reprimiu:

“- Como ousa me interromper Keira? Há uma hierarquia aqui e você claramente a está ignorando. Saia daqui imediatamente!”

Mas Keira ignorou, assim como os intrusos também. Mais homens armados entravam e o último a completar a situação foi uma figura vestida de armadura completa e um elmo com grandes cornos. Gelibol e Strauss abriram passagem para ele e a figura proferiu:

“- Não há motivos para um derramamento de sangue neste solo sagrado. Vamos todos civilizadamente para o torreão da guarda de Reymend, onde toda essa confusão será resolvida. Não façam tolices.”

Mas Gatts sabia que o tempo estava contra ele. Aqueles homens não eram da guarda de Reymend e ele supunha facilmente quem eram e por que estavam ali.

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O cerco ao guerreiro mago

Gatts contra Todos

Gatts segurava a mão de Caleb com o máximo de delicadeza que podia reunir e com a outra mão dirigiu para o ombro de Keira. As palavras do guerreiro mago foram rápidas e precisas. E ao final dela, disse a Keira: “- Confie em mim sacerdotisa. Precisamos sair daqui!”. Conjurando palavras em uma língua ininteligível, sob os pés do trio um disco escuro surgiu. Caleb caiu no vão aberto e desapareceu. Mas quando Gatts abriu os olhos novamente se surpreendeu. Ele e Keira estavam no mesmo local. Sua magia havia falhado, por mais impossível que lhe parecesse.

E foi a voz de Alcaide Mor as suas costas que os fez perceber quem era de fato o tutor. Como uma cortina que o despia, sua aparecia de um velho de cabelos grisalhos e caolho foi dando lugar a uma mulher jovem e de cabelos vermelhos, na altura dos ombros. Gatts a acho familiar, mas no desespero do momento não se recordou quem era. E a mulher ruiva disse:

“- Você não irá a lugar algum, meu caro! Não tente qualquer tolice.”

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Alcaide se revela na verdade uma bela mulher

Os homens avançaram sobre Gatts e Keira imediatamente. O guerreiro mago sabia que precisava escapar a qualquer custo! Se ficasse ali, seria o seu fim.

Agarrando Keira com força ele deu um salto para o alto ficando mais leve que o ar e, assim, alçando voo. Todos os soldados da legião atacaram devido a oportunidade dada pelo movimento de Gatts. O guerreiro sentiu o corte dos hábeis guerreiros mas, mesmo assim, ele conseguiu se desvencilhar dos inimigos. Voando, ele se afastava rapidamente para fora do templo. Para a sua surpresa notou na entrada o proprio Bast, sacerdote de Vecna que ele havia confrontado na mina onde salvou Caleb. O sacerdote invocou os poderes de sua divindade e lançou sobre Gatts um raio anulador de magias. Porem, o que o clérigo não sabia era que Gatts voava como efeito de um item, suas botas mágicas.

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Gatts cercado

Com Keira em seus braços, ele voou se afastando daquela emboscada.

A Feiticeira do Pântano Negro

Gatts voou até o telhado do templo, onde deixou Keira. Para ele tudo estava acontecendo muito rápido e não tinha tempo para garantir uma melhor proteção para a presbítera. Se a sacerdotisa do Santo Cuthbert tivesse sido deixada dentro templo, com certeza ela estaria morta. Ela foi tola em resistir ao efeito do portal dimensional que ele havia conjurado, diferente de Caleb.

Recobrando a memoria da companheira, Gatts voou até a região onde calculou que o portal seria aberto e omde a primeira dama poderia estar. Ele procurava por Caleb, enquanto sobrevoava invisíveis, as casas e ruas da área mais afastada do centro de Reymend. Ele pensava sobre o feitiço que o prendeu ao templo e impediu o efeito do portal invocado. Só poderia ter sido um contra feitiço conhecido como “Âncora Planar“. Era uma mágica elaborada e difícil de ser conjurado, porem ele não viu gestos ou mesmo palavras serem proferidas por aquela mulher. Com certeza era poderosa. E foi neste momento, como um estalo em suas lembranças, que ele recordou de onde a conhecia. Incrédulo, ele chegará a terrível constatação. Aquela mulher era Raven Pântano Negro!

O guerreiro mago estacou no ar, reflexivo sobre sua conclusão. Ele ponderou sobre todos os demais fatores que rondavam a filha de Iuz e explicavam a fonte de seu poder. E pensar que ele já a teve diante do fio de sua espada e sob o calor das chamas de sua Bola de Fogo, no Fiorde de Pantarn. La, ela enganou a todos e foi responsável pela condenação de Laucian. Eram histórias há muito tempo vividas e cujas lembranças agora voltavam a tona. Gatts não podia continuar procurando por Caleb, ele precisava pegar Questin e sair daquela cidade maldita.

Toda essa história havia se prolongado demais.

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Reymend

O Limite da Lealdade

Gatts voou de volta para o centro da cidade e notou uma grande movimentação no centro da pequena cidade. Algo estava muito errado. Apos ativar uma carga de sua magia de invisibilidade voou para mais próximo do centro e seu coração congelou quando notou Questin, com as mãos amarradas às costas e de joelhos, com quatro figuras em seu entorno. Dentre essas figuras, lá estava ela: Raven. Com suas mãos estendidas a mulher  parecia perscrutar a mente do halfling de costas.

Gatts sentiu em sua mente o halfling, dizendo-lhe:

“- Gatts, não consegui escapar. O líder deles tudo vê daquele elmo cerrado. Meu amigo, estou com medo! Me tire desta! Eles dizem que me matarão.”

Gatts sabia que aqueles pensamentos estavam sendo transmitidos telepaticamente através de Raven. Ela sabia que ele estava ali mas não sabia exatamente onde. Gatts sabia ser esquivo quando necessário, mas Raven sabia perfeitamente que ele via a toda a situação.

Gatts imaginava o que ela estava tentando fazer. Ele precisava agir rápido e assim o fez.

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Questin encara o seu destino no fio da lâmina de seu carrasco

Tentáculos Negros de Evard

Na região do palco, cercado por sentinelas da legião e afastado da população que assistia ao evento com torpe curiosidade, o guerreiro invocou os Tentáculos Negros de Evard. Grossas sombras, consistentes como troncos de árvores e feitas de material liso e delgado cresceram do solo, vindas dos planos inferiores. Os tentáculos atacaram a tudo que era vivo e se mexia. A população, assustada, deu um sobressalto para trás e, ainda que não lhes ameaçasse, houve correria e confusão.

Os guerreiros da legião foram apanhados de surpresa. Gritos abafados foram ouvidos diante do abraço gelado dos tentáculos. Vendo a oportunidade a frente, Questin correu. E o fez como se sua vida dependesse disto. Para o pequenino se esquivar dos tentáculos era uma tarefa fácil, ele o era deveras ágil e era praticamente impossível ser agarrado. E, desta forma, ele saiu dos limites do círculo de tentáculos. Gatts voou rápido na direção do pequenino. Ele estava a algumas dezenas de metros de distância, mas na metade do caminho parou.

Com uma pancada na cabeça de um dos soldados que estava de fora da área de ameaça dos tentáculos, Questin veio ao chão, desacordado.

Não mais Reymend

Os tentáculos desaparecem tão misteriosamente quanto surgiram. Uma dissipação da magia cancelou a feitiçaria de Gatts e os sentinelas, aos poucos, se recuperaram das contusões e ataques. Com o dedo apontado para o centro do palco, o sacerdote de Vecna, Bast, havia desfeito a magia de Gatts.

O guerreiro mago viu quando o halfling foi levado para o torreão de Reymend, desacordado. Gatts sabia que não havia nada que pudesse ser feito. Seu aliado havia sido capturado e qualquer coisa que ele fizesse poderia culminar em ele sendo pego também. Para que pudesse ter alguma chance contra aqueles inimigos, precisaria recuar e esperar a situação se tornar mais favorável.

Reymend estava sobre o controle da Legião do Chifre, Raven e de Bast.

Gatts voou para fora da cidade, atravessando os limites das fazendas cultiváveis e indo mais além. Quando parou o fez por que o efeito mágico de suas botas havia acabado. E ele procurou abrigo em um celeiro abandonado, numa fazenda em desuso.

O Lamento de um guerreiro

Gatts adentrou o local já em ruínas e procurou sinais de visitantes ou alguém na vizinhança. Constatou mque estava isolado, muito longe de qualquer sinal de civilização. Sentar-se, cansado e respirou profundamente. Após um tempo de reflexão, analisando as possibilidades que tinha em mãos, considerou a possibilidade de emitir uma mensagem para os seus companheiros. Eles precisavam saber de sua condição. Porem, quando a magia foi invocada, Gatts percebeu uma mudança na malha mágica que ligava a tudo em Flanaess. Naquela região havia uma mudança, uma tênue mudança, como se alguém pudesse detectar nuances mágicos e capturar informações de sua origem. Desconfiado, Gatts optou por não concluir o feitiço.

Através de muito autocontrole e força de vontade, ele não cedeu ao cansaço. Passados alguns instantes, ele olhou para o teto e a vontade veio á sua garganta.  Ele gritou. E gritou novamente, mais alto. Ele queria explodir de raiva, ódio e rancor. Ele jogava para fora toda a sua decepção, sua frustração e sua tristeza. Ninguém ouviu ou testemunhou quando os olhos do furyondês ficaram vermelhos, marejaram e no limite de todo seu controle, ele chorou.

Gatts não sabe por quanto tempo ficou ali, naquela mesma posição, ajoelhado. Refletiu sobre tudo que estava lhe ocorrendo. Pensou como queria estar com sua prima e como lhe faltava o ombro forte do anão Talglor. Ele estava só. E nunca se sentiu tão solitário em sua vida. Pela primeira vez em toda a sua carreira, diante de tantas frustações, um lampejo de uma solução cortou sua mente. Tudo poderia acabar ali caso ele desistisse. Poderia abandonar todo aquele caminho tortuoso. Bastava apenas desistir.

A vontade veio, mas ele não cedeu. Por um tempo o guerreiro não pensou em absolutamente nada. Ainda que o cansaço lhe tragasse para o descanso ele não descansou. Permaneceu vigilante ate a chegada da noite, naquele abrigo improvisado e destruído em que ele se encontrava.

A hora havia chegado.

Entre as Sombras e a Coragem

Gatts procurou em suas coisas por um velho pergaminho, um tesouro encontrado em aventuras antigas. Tratava-se de um pergaminho de Forma de Sombras. Gatts havia guardado aquela magia para poder incluí-la em algum momento em seu acervo pessoal, mas a situação havia chegado a um estado limite e, como tal, demandava decisões difíceis.

Em seu íntimo, Gatts guardava um receio de utilizar aquele pergaminho. Ler aquelas palavras mágicas de forma correta e precisa lhe transformaria em uma criatura da noite. Uma sombra, um morto-vivo capaz de viajar pela escuridão e acessar locais sem a percepção de seus presentes. Com aquela forma, Gatts sabia também que receberia as benesses e desvantagens de ser um  morto-vivo, principalmente um que fosse vulnerável a luz. Se fosse morto naquela forma, estaria perdido. Morto para sempre. Mas ele estava determinado a fazê-lo.

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O pergaminho da forma de sombras

A lealdade sempre foi a maior qualidade e defeito de Gatts. Naquele momento, ele julgava se Questin o halfling fora leal, mas, ele não sabia como, o pequenino resistira.

E quando estava determinado a ler o pergaminho ele parou. O medalhão que carregava tremia, impulsionado por uma força que ele não compreendia. Os elos de aço se romperam e o disco de Heironeous caiu no chão sujo. Gatts testemunhou o disco girar no solo e, a medida que isso ocorria, uma frase se formava claramente aos olhos do guerreiro:

“- Retorne para Verbobonc.”

Quando Gatts caiu em si, o seu medalhão estava firmemente preso em seu pescoço. No chão, o vento varria o que parecia estar escrito outrora. O furyondês não esperou mais. Gatts sabia o que deveria fazer. Exaurido de suas magias, ele sabia que precisava descansar e assim o fez somente neste intuito. Precisaria estar pleno para o novo dia. E assim, descansou o resto da noite em uma semi-vigília e nesse embalo ele sonhou, mas também teve um pesadelo.

O Sonho

Caleb surgira em meio a uma região de Reymend, afastada do centro. A primeira dama conhecia aquelas aquela região e sabia que se não encontrasse abrigo, logo seria descoberta. Ela abominava a ideia. Não queria mais aquele destino para si. Aquele homem que atendia pelo nome de Gatts a salvara e, no ímpeto de seu último gesto altruísta, havia levando-a para longe dos braços do seu marido, prefeito de Reymend. Estava perdida. Ela sentia a falta de seu salvador e sentia-se, de certa forma, errada por isso. Ela estava confusa. Algo naquele homem lhe transmitia sinceridade, bravura e ternura.

O som de passos carregados e malhas trincando a tiraram dos devaneios. Olhando através de uma esquina, Caleb Mengue viu homens vestidos em armaduras em seu encalço. Eles a procuravam. Aqueles homens não eram de Reymend e não integravam a guarda da cidade, ou mesmo de Verbobonc. Ela não sabia dizer sua real origem e logo eles a alcançariam. Seu fim parecia cada vez mais próximo.

O anjo sem nome

Ela recuou pela passagem onde estava e percebeu, para seu desespero, que estava em uma rua sem saída. Apenas uma porta fechada havia ali. Eles a encontrariam! Ela orava a Santo Cuthbert, pedindo para não reviver aquela tortura. Caleb correu desesperada em direção a única porta naquela viela e desesperadamente bateu, na esperança que alguém a ajudasse. O som das armaduras estava mais próximo. Mesmo sonhando, Gatts sentia a angústia da Srª Caleb naquele pesadelo.

A porta abriu, finalmente! Caleb caiu no assoalho do recinto, um pequeno casebre de madeira velha. A porta se fechou no mesmo instante que os homens surgiram na passagem, mas não havia nada. Caleb estava em segurança.

Quando a jovem mulher se ergueu, notou uma velha senhora de pijama branco, já envelhecido. Caleb não a conhecia, mas sentiu um alívio sem explicação lhe invadir diante daquela senhora. Ela foi erguendo-se, com a ajuda da idosa e a abraçou em agradecimento. Caleb não pôde ver, mas os olhos da velha mulher brilhavam num leve tom azulado e sorrindo, ela disse:

“- Fique tranquila, minha filha. Poderá ficar aqui por quanto achar necessário. Ninguém lhe encontrará aqui. Ninguém lhe fara mal algum.”

O Pesadelo e o Demônio sem nome

O Sonho muda. Gatts não vê mais a Srª Caleb. Ele encontrasse no torreão da guarda de Reymend. O chão frio estava respingado por sangue. Preso por grilhões a uma parede, o pequenino Questin era submetido a um interrogatório cruel. No recinto, quatro figuras. O interrogador, Bast, Raven e o homem cujo rosto era oculto pelo estranho elmo. Questin já estava rouco e ja quase sem voz. O halfling gritava enquanto suas unhas eram arrancadas com uma meticulosidade cruel e sua mão era apenas uma mancha escura de sangue.

“- Eu já disse a vocês, não consigo lembrar! Sei que sei, mas não consigo! Por favor parem, eu não aguento mais! – Tentava justificar entre gritos o pobre Halfling.

Um grito mais intenso invadiu a mente de Gatts, fazendo-o se arrepiar. O torturador acabara de arrancar o dedo mindinho do pequenino, com um alicate.

A mulher no recinto diz: “- Ele sabe, mas algum tipo de encantamento bloqueia até mesmo ele de acessar os próprios pensamentos! Somente eles podem nos dar as respostas sobre onde está Thrommel, diabos!”.

Demonstrando clara impaciência, o homem de elmo fechado faz um meneio com a mão e Bast avança contra Questin, enquanto afasta Raven.

“- Sei uma forma de você nos dizer o que queremos, pequeno Questin! Sua dor há de acabar. Se não pode nos dizer em vida, nos dirá na morte!”

E sacando uma fina navalha prateada, Bast, num gesto rápido, corta na garganta do pequeno Halfling, já moribundo. O sangue verte do talho, feito precisamente de orelha a orelha. Todos testemunham, em silencio, o gorgolejar do halfling, afogando-se em seu próprio sangue. Vermelho e intenso, ele escorre pelo corpo de Questin, esfriando a medida que, abaixo dele, forma uma poça escura no chão do torreão.”

Questin, em seus últimos espasmos de consciência, sorriu. Desde o inicio do interrogatório poderia acessar os seus conhecimentos, era só ceder. Mas no fim, ele resistiu e agradeceu pela ajuda do homem de luz que estava presente naquela sala, mas somente ele era capaz de ver. E, em seus instantes finais, ele questionou para a figura de luz:

“- Eu…eu também posso ir?”

E sorrindo, o ser iluminado lhe estendeu a mão. Ele finalmente poderia descansar.

Verbobonc

Dia 05 de Preparos de 597 CY

Gatts acordou de sobressalto. Ele não soube dizer exatamente quanto tempo dormira, mas aquele sonho e aquele pesadelo havia sido muito reais. Em seu intimo ele sabia que aquilo foi real. Ele lamentava por Questin! O pequenino fora leal até o fim. Uma perda inestimável. Quanto a Srª Caleb, ele estava mais tranquilo. Com certeza ela estaria bem.

O guerreiro recolheu suas coisas e apagou os seus rastros da melhor maneira que pode.  Ele ainda tentou encontrar Caleb dentro de Reymend, voando invisível pela região onde ela, provavelmente, havia surgido. Porem a busca foi infrutífera. Saindo de Reymend, invocou seu cavalo mágico e partiu para o sul. Ele sabia que estava a cerca de um dia do Viscondado. Ele precisava avançar rápido e assim o fez.

Dia 06 de Preparos de 597 CY

Gatts cavalgou durante todo o dia, parando somente a noite para descansar. Logo pela manhã, se pôs em cavalgada novamente. Por volta do meio dia alcançou o Viscondado. A cidade era grandiosa, totalmente diferente de Reymend. Ele se dirigiu para a estalagem Gamo de Ouro, a fim de descansar um pouco a viagem urgente e ininterrupta. Ele ainda não fazia ideia de como encontrar seus companheiros. Logo depois que comesse alguma coisa procuraria por Regis, ele lhe daria as pistas necessárias.

Mas não chegou a ser necessário esse encontro. Através da conversa de dois homens em uma mesa, ele descobriu que os seus companheiros provavelmente estariam na Catedral do Santo Cuthbert, e foi para lá que ele se dirigiu.

Continua…

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Sobre o Autor: Bruno de Brito

Mestre da campanha "Aurora dos Conflitos", ocorrida no cenário de Greyhawk. Entusiasta do sistema Pathfinder, fã de Magic: The Gathering e churrasqueiro nas horas vagas.

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